Os parques nacionais e a história da biodiversidade

1Expedição no Parque Nacional das Sempre-Vivas (2016)

 

Por Carlos Sanches

Além de proteger a biodiversidade e disponibilizar uma série de serviços ambientais, os parques nacionais guardam no seu interior registros de vários períodos da história da vida na Terra. Cada unidade de conservação é como um livro imenso aguardando sob a ação das intempéries por alguém que possa ler em suas páginas um número quase infinito de histórias e informações.

As áreas protegidas e remotas propiciam o ambiente ideal para a realização dessas viagens no tempo, já que apresentam um ambiente relativamente menos antrópico. As cidades e mesmo os vilarejos ou até as áreas de cultivo ou pecuária acabam por guardar muito pouco do passado dos ecossistemas e até mesmo de resquícios humanos de outros períodos, já que nesses lugares a ação recente do homem pôde suprimir, danificar ou até tornar essas páginas da história inelegíveis e inalcançáveis aos olhos e aos instrumentos dos cientistas.

rupestreNesses lugares com menos interferência humana, mais do que em quaisquer outros, podemos revelar a história da biodiversidade, através do cruzamento de informações distintas que vão desde o estudo dos processos geológicos, passando pelo exame de vestígios paleontológicos e arqueológicos, pela ecologia dos ecossistemas, pela biogeografia, até chegar aos relatos de naturalistas e cientistas do passado recente.

Essa é uma das características das unidades de conservação que ganha cada vez mais importância, tanto no âmbito científico, quanto em processos educativos ou mesmo no ecoturismo. As áreas protegidas disponibilizam a ambientação perfeita para o entendimento de várias passagens da história da Terra, das espécies, dos lugares, dos países e das pessoas. São museus de história viva, espaços do conhecimento, lugares da educação e do entretenimento.

Com a colaboração de cientistas e educadores, cabe aos gestores dessas áreas efetivarem esses espaços do conhecimento, revelando às pessoas as páginas desse livro fantástico que existe em cada unidade de conservação.

2Pico das Agulhas Negras. Expedição realizada no Parque Nacional de Itatiaia em 2012.

São muitas as páginas que podem ser reveladas e de diferentes maneiras. Um mesmo lugar pode apresentar várias delas, basta evidenciá-las. Cada montanha, cada vale traz em si a sua própria história e a história do planeta. Algumas trazem mais de um bilhão de anos de histórias, outras carregam no seu bojo fragmentos de espécies extintas. Alguns desses vales nos surpreendem com vestígios inusitados de um oceano nas alturas, de pinturas milenares ou até de ruínas de cidades esquecidas. Neles podemos conhecer as mudanças do clima, o lento e contínuo movimento dos continentes, a evolução da vida, os sinais de povos antigos e a nossa própria cultura.

É sempre bom lembrar que o estudo da história da biodiversidade é sobretudo o estudo da nossa própria história enquanto espécie. Estudar a biodiversidade é como construir uma árvore genealógica da nossa família e ter durante o processo a surpresa e o prazer de descobrir aquele parente distante que até então não conhecíamos.